Passado o feriado de Carnaval – mesmo eu trabalhando normalmente, fiz o que ele queria comer, me tornei a mãe chata e repetitiva se tudo estava bem. Aceitei todos os convites para correr e treinar, afinal cada minuto era ouro – e, finalmente, chegou a manhã do dia 6. Mala arrumada na véspera, check-list para não ficar sem algo que fosse necessário nessa quarentena “secreta”. E como nos dias anteriores, acordamos cedo para o impreterível (e como não dizer o dicionário, o implacável) DIA D.

Foi a manhã que mais pensei nas mães que se despediram dos seus filhos nas duas grandes  guerras que passamos em décadas passadas; dos conflitos espalhados pelo mundo e das guerras religiosas. Não é fácil, nada fácil. E isso que o meu só iria a pouco mais de 7 quilômetros de casa para uma guerra só dele e de todos os convocados.

Coração apertado, pai e mãe não aguentaram a emoção. Juro que tentei ser forte! Até a despedida dele com a nossa cachorra, a Menina, foi um soco no estômago. Podem dizer que sou dramática, “sentimentalóide” ou o que quiserem denominar, mas é difícil. É o desconhecido para ambos que te joga na cara que não está mais no controle …. Parei para pensar quando tirava o carro da garagem, um coisa que meu marido me perguntou: “Não é melhor ele estar há poucos metros de distância do que estar no Canadá ou sabe-se lá aonde?” Sim e não. Piegas ou não, a saudade não se mede pela distância, mas pelo bem estar. Tenho minhas dúvidas se esses 40 dias não serão o inferno de Dante!

E lá se foi o Bruno. Cheguei 30 minutos antes do horário combinado para a entrada. Abraço daqui, beijo de lá, aperto de mão que chegava a sentir os ossos da mão dele (queria guardá-lo dentro de mim!),- tudo dentro do carro porque nada de pagar mico! Todas as frases de incentivo, olho no olho com assertividades, e a certeza de que muito do que eu falava era somente para eu ouvir, amainar minha saudade que tinha chegado com tudo. Observei os outros meninos que chegavam. Alguns eram trazidos pelos pais, de carro. De um jeito frio, para meu coração de mãezona. Paravam, abriam a porta e os deixavam com suas mochilas na calçada. A grande maioria chegava sozinho, descendo do ônibus carregando sacola com travesseiro, coberta e suas mochilas. Tensos, ansiosos e sozinhos. Chorei por eles também.

Antes de sair, precisei dar risada em meio as nossas lágrimas. Uma forma de desanuviar a tensão. Um carro parou atrás com um casal e um menino do batalhão do Bruno. O pai abriu a porta do motorista, sentou com as pernas para fora e tirou uma caneca de café de uma térmica. Tranquilo, descansado. A mãe desceu do banco de trás, arrumando o cabelo e o vestido, falando apressada para o filho que tinha que descer, que estava na hora. Apavorado, com cara de sono, desceu o guri pegando a bolsa de nylon.  A mãe sem nem titubear arrancou a mala da mão do filho e disse que ia com ele até o portão. Entre “mãe, não precisa .. mãe, ninguém tá indo com a mãe…”, a coitada foi murchando e me coloquei na pele dela – mesmo sabendo que jamais diria o mesmo para o Bruno. Sei meus limites! Queria adiar a despedida, mas sabia que precisava dar o corte. Os deixei na discussão de que se ela iria ou não. Dei o último olhar para meu filho atravessando a rua, empertigado, firme. Ainda trocamos duas vezes olhares de confiança. “Você pode, meu filho. Você vai ficar bem”, disse em silêncio.

Foi um dia pesado. Pensei de todas as formas que precisava vibrar bem, saudavelmente … nem toda a busca por uma elevação espiritual me fez acreditar que estava deixando meu garotinho para o incógnito. Chorei… enxuguei as lágrimas… chorei de novo a cada vez que pensava no rosto dele. Choveu muito naquela tarde. Coração apertou pensando que poderia estar na chuva. E aí vem a “chuva” de perguntas: está aquecido? Já comeu? Será que vai dar dor de garganta? Será que levou tudo em quantidade suficiente? E a pergunta que não quer calar: será que está feliz?  Rezei por ele, rezei por todos os meninos que iriam dormir fora de casa e pedi que os espíritos de luz lançassem as energias positivas e estivessem presentes nas horas de aflição, de dor, de saudade. Mas, amanhã é outro dia … e depois outro ….