Dia 8 de março de 2019 – Para alegria de todos, chegou o dia da formatura. Não pelo evento, mas só o fato de poder vê-lo e abraça-lo senti-me a mulher mais feliz do mundo. Na noite anterior, tinha “chorado as pitangas” para a madrinha dele. A melhor pessoa para escolher para ser a madrinha dele. A Sandra  ouviu a milhares de distância o desabafo e o chororô e acalmou meu coração. Obrigada, amiga irmã de outras vidas! Combinamos que eu iria amassá-lo de tanto abraçar.

O Hugo não queria ir. “Nem pensar em faltar à escola”, daquele jeito só dele e quem o conhece bem sabe que é uma desculpa “só para não atrapalhar”. Na noite anterior, me disse que não queria chorar. Mas, depois de alguns argumentos de mãe, ele mudou de ideia.

Os três preparados bem cedinho, saímos quase uma hora antes do horário marcado. Quando chegamos, pouco mais de uma dezena de familiares se postavam ao lado do muro, à espera da abertura dos portões. Ficamos no carro.

Pensei de tudo um pouco. Já acompanhei a fila de familiares que esperam os portões dos presídios abrirem; já presenciei filas de hospitais psiquiátricos, sem nenhuma analogia, pensei em cada um daqueles casos e procurei em cada rosto que visualizei  no quartel uma semelhança. A mesma ansiedade; a risada nervosa de uma euforia sem precedentes ao saber que estavam prestes a ver seu parente amado. Que mundo louco onde os sentimentos são os mesmos, em qualquer raça, em qualquer idade, em qualquer situação financeira.

Tinha uma mãe com outros dois filhos e duas filhas que riam alto. Tinha o senhor de terno – maior que ele – que fumava calmamente. O Hugo me perguntou se eu achava que ele tinha servido. Pela idade, com certeza. Achou outro pai que fumava na beira da rua e foram proseando, só para passar o tempo. E era um tempo lento. E só foi chegando mais pessoas. Crianças arrumadinhas; mulheres de salto e maquiagem em excesso para as 8 horas da manhã; outros que pareciam que tinham acordado e ido do jeito que estavam; dois meninos com mochilas e cobertores. Não entendi e fiquei cuidando para descobrir o que poderia ser… Mães com sacolas plásticas, que acredito guardarem doces, bolachas. Pai e mãe sozinhos o que podia significar que iam ver seu filho único. Instigante tentar descobrir a história de cada uma daquelas pessoas que se postavam em fila, em ordem, no muro do quartel, mesmo sabendo que ao abrirem os portões a ordem não ia significar nada.

E exatamente isso aconteceu quando deu 8 horas e saímos do carro. A ordem que tinha antes, se transformou em impaciência. Todos queriam passar antes dos outros. Ouvi: “eu cheguei cedo, quero entrar cedo”.

Nunca tinha entrado no Quartel do Boqueirão. Das muitas vezes que passei em frente, sempre imaginava como seria por trás dos muros. Organizado, limpo, lugar agradável. Ao longo do caminho margeado pelos jardins bem cuidados, com calçadas pintadas de cal branco, encontramos outros soldados – já incorporados há algum tempo – que distinguia pelo gorro. Os de boinas significavam que estavam há alguns meses; os com uma faca na direita e arma na esquerda eram os mais graduados. Sem óculos, não conseguia distinguir os nomes fixados no uniforme. Até esqueci que tinha que ficar ao lado do marido e do filho. Segui em frente, igual criança curiosa.

No pátio central, cercado por dois prédios principais e o primeiro dormitório do 1.º batalhão, tinham armado um palco e duas tendas azuis, lado a lado, para os familiares sentarem. É claro que pareceu o estouro de uma boiada. Dei aquela olhada básica para encontrar o melhor lugar e lá me fui em frente. É por essas e outras que os meninos me apelidaram de “sargento”. Só dou risada. Sentamos na primeira fila. Bem em frente ao pátio que eles iriam marchar.

Impaciente, trocava uma palavra com o Hugo, lembrava o Hélcio que não podia deixar de gravar. Minha perna não parava… Quem me conhece sabe que só para lá de curiosa e muita coisa estava acontecendo atrás de mim… Quase uma hora e meia depois, precisei ir ao banheiro. Solícitos, dois soldados me apontaram o prédio que deveria ir. Perfeito! Era o prédio principal onde percebia um entra e sai frenético de homens e mulheres fardados.

Ao entrar, parecia que estava em um arremedo de um castelo, arquitetura antiga, com as paredes forradas de madeira e quadros de fotos com comandantes anteriores. Escadaria estreita também de madeira. O prédio está em reforma, provavelmente sendo modernizado. Ao apontarem onde ficava o banheiro, encontrei-me no corredor do setor médico. Aproveitei para dar uma espiadinha! A mesma limpeza e ordem do lado externo, encontrei por ali.

Ao voltar, fui desviando de sombrinhas e guardas-chuva pelo caminho. Tinha aumentado e muito os visitantes que tentavam escapar da chuva e ora do sol, que quando abria vinha escaldante. Voltei ao meu lugar e tive uma surpresa. Um senhor ocupava a cadeira que estava. Dei aquela olhada para o Hugo como dizendo: “não avisou que estava ocupado?”. Mas, tudo bem. Era um senhor idoso – que soube depois tinha um problema na perna. Afinal, em pé tinha uma visão privilegiada, sem contar que podia me locomover e descobrir mais algumas coisinhas.