12 horas de sono para recuperar as poucas quatro diárias que era permitido. Sim, era puxado. Mas, meu menino estava disposto. Forte – o abdômen semi-tanquinho que tinha antes de entrar no quartel estava duro igual a uma pedra de tanto “pagar” com o “sentado um dois”. Primeiro aprendizado: mesmo que a falha não seja sua, todos são responsáveis.

Flexões existiam, mas não tanto como no passado. Agora, o da vez era uma espécie de exercício que eleva o corpo do chão sem usar as mãos como apoio. Maluco e impossível para eu fazer sem me apoiar. Ele conseguia. Fácil e ágil. E, conforme um dos sargentos, a “punição” não era assim tão ruim. O exercício faz parte de uma técnica de ioga e que tem o objetivo de fortalecer a musculatura. Nada como ter 18 anos.

Pela manhã, a rotina era igual a todos os outros dias. Todos em pé e vestidos às 5h30, postados no pátio, à espera das primeiras ordens. O sono não era o dos justos, porque o alerta ficava sempre ligado. Os recrutas se revezavam na guarda e rondas dos corredores e entradas do bloco.

Antes do café da manhã, a faxina geral. O Bruno estava responsável pelas escadarias. Descobriu na pele que limpar os degraus com buchinha de lavar louça não era nada fácil. Mas, se a lógica era lavar cada degrau de cada vez, passou a ver que o serviço corria contra o relógio. O que estava limpo minutos antes, via ficar sujo rapidinho com o subir e descer dos soldados. Passou a lavar metade dos degraus de uma vez.

O café da manhã no rancho, na sequência. Era o momento de todos os batalhões se reunirem; e os encontros com alguém do bairro era inevitável. Quanto ao quesito alimentação, o Bruno não tinha do que se queixar. Era farta, a comida simples mas boa. No café da manhã, dois pães, margarina e café com leite em pó. No almoço, o cardápio incluía arroz, feijão, um tipo de carne e verdura. De fruta, muita laranja. Na janta, sem muitas variações. Por volta das 22 horas, uma ceia com mais café e leite em pó, pão e iogurte.

Pratos e canecas de plástico eram os objetos que precisam ser pegos com rapidez ao aviso para o horário de ir para o rancho. E aí surgia uma forma inteligente de garantir “subsistência” ao longo do dia. Os bolsos das fardas são largos e fundos. Bruno descobriu que eram considerados “territórios livres” de vistoria. O pão que não conseguia comer ia parar lá dentro, assim como laranjas distribuídas à rodo. Tudo servia para dividir com os amigos de dormitório após apagarem as luzes às 22 horas.

Deixar comida no prato, impossível. Se não conseguir comer, o colega ao lado terá que fazê-lo. E como “silêncio é ouro” nada de dizer para o cozinheiro que não gosta de tal alimento. Aí sim, conchadas de polenta mole, por exemplo, irão ser o único alimento do dia. “Se não comer tudo, vou encher novamente”. Bruno aprendeu a comer quirera em um piscar de olhos.

Ao longo do dia, acontecem aulas de instrução. Físicas e teóricas. As teóricas podem chegar até as 22 horas. E manter o sono afastado é muito difícil. O Bruno contou que chegou a “torar” (cabecear) duas vezes. São nesses momentos que eles aprendem diversos temas como o manuseio da arma, técnicas de sobrevivência como saber mais de animais e plantas e técnicas. As que ele mais gostou – e me contou cada detalhe, até tentou ensinar para o irmão e o pai – foram as defesa pessoal. Nada de matar aula!

“São tantas coisas para fazer e aprender, mas mesmo assim o tempo passa muito devagar”.

Diariamente, treinam a ordem-unida. Uma espécie de “coreografia” militar, para saber como se posicionar, como marchar, como levar a arma de um lado a outro. O segredo é mantê-la intacta. “Quase que uma namorada”, brinquei com ele.

E tem o momento fashion. Sim, eles precisam estar limpos e “passados”. Fio dental, quando dá tempo. Tomar banho é diariamente, somente à noite. Exceção quando fazem exercício antes da hora do almoço. Entre os itens de higiene que são solicitados, estão toalhinhas úmidas – iguais a usadas em bebês – que o Bruno precisou comprar novamente tanto que usa e divide com os amigos. A farda – que confesso acho muito linda! – tem que estar limpa e passada, mas é de um tecido ótimo para secar e ficar sem rugas. Os coturnos, limpos e engraxados.

Nos poucos momentos que “levantam à guarda”, podem dar aquele trato na “cabeleira”. Nada de passar dos dez dias exigidos para o carimbo no cartão. Documento esse mais importante do que o RG. Cabelo estilo à escovinha.