Entre ser e estar há uma boa diferença. A priori, aprendemos isso nas aulas de Língua Portuguesa. No sentido comportamental que distância é essa que “parece” que somos o que não somos?

Para qualquer adolescente, realmente, isso é papo de louco. Dentro do rito de passagem, aqueles que aceitaram em cumprir o serviço militar saíram de um dia para outro de uma rotina própria de cada família para outra extremamente tradicional e rígida. E isso pode ser muito confuso. Lembram de quando falei da relação de amor e ódio com o Exército? Touché! Os nossos filhos vivem essa luta dentro do processo de aprendizagem do ser soldado – quando ele existe como tal – e de estar soldado, ao lembrar que estão inseridos em lugar e tempo de uma ação. Simples? Nem um pouco.

A rotina de um quartel pode ser muito restritiva, muito coletiva, muito limitante, muito impositiva. Não à toa é muito fácil ouvir de oficiais mais antigos de que “silêncio vale ouro”; “se obedecer e fizer tudo que lhe é pedido, não vai ter problemas”; “queremos transformá-los em pessoas melhores do que entraram…” e por aí vai. Seguido desses conselhos, sempre vem um “faria tudo de novo, viveria todos os momentos outra vez de forma irrestrita porque a vida é missão” como forma de incentivo. Nem tudo que parece ruim, é de fato.

Mas, pelas histórias que tenho ouvido nesses últimos dias, não é bem assim que tem “andado a carruagem”. É muito difícil para alguns dos adolescentes seguirem regras. Querem ser soldados, tem o ufanismo de servir ao país, mas nem todos entendem o que é estar soldado e quais as etapas e limites que devem seguir para chegar lá. Afinal, todos os superiores um dia foram recrutas.

Confundem liberdade com irreverência; confundem aproximação com amizade sem limites, onde o outro é obrigado a aceitar o que eu quero e não o que deve ser feito; acham que o “jeitinho para tudo” vai dar conta do recado …. Disciplina? É de comer ou beber, parecem questionar. O resultado é que os que procuram fazer o seu melhor sofrem as consequências da falta do coletivo.

Pedi ajuda para os “universitários” e conversei com um amigo, o estudante de psicologia, Bruno Huffel sobre limites/imposições/dificuldades em aceitar ordens/insubordinações e resultados e ele me presenteou com um texto para compartilhar com vocês. A distância entre o ser e o estar é muito particular quando o assunto é desejo.

ADOLESCÊNCIA E A RELAÇÃO COM A AUTORIDADE
📌 Há um consenso de que a fase da adolescência é um dos mais complicados no que diz respeito à educação de pais para com seus filhos.

📌Para os pais, há a dificuldade de compreender que seus filhos estão crescendo e que os mesmos passam a ter desejo pela independência, ao mesmo tempo que necessitam da autoridade dos pais e imposição de certos limites.


📌 Do ponto de vista dos adolescentes, os pais continuam assumindo apenas uma função proibitiva e que os enxergam como seus bebês. Nessa fase, outras influências passam a ser experimentadas pelos adolescentes e isso é fundamental para seu desenvolvimento como indivíduos individualizados, ou seja, com autonomia psíquica e emocional para lidar com as experiências do mundo.

Estamos falando de jovens que beiram seus 20 anos (…) e que vivem em um contexto social bem diferente. Hoje, os filhos tendem a sair de casa muito mais tarde, ou quando saem podem permanecer sendo sustentados pelos pais, o que acaba gerando influências em seu desenvolvimento.


📌 E como compreender essa fase do desenvolvimento humano e seus reflexos em relação à autoridade? Precisamos ter em mente que as relações estabelecidas pelos jovens, fora de casa, são uma extensão das experiências vividas no núcleo familiar. A figura do professor, do chefe, do colega de trabalho, do superior e, até mesmo do comandante das forças armadas, revive experiências anteriores vividas pelo jovem. Tais experiências podem ter sido interpretadas de forma positiva – que permite o reconhecimento da lei e da ordem, de forma tranquila – ou de forma negativa, o que geram sentimentos diversos nos jovens.

📌 Há inúmeras formas de lidar com esses sentimentos decorrentes de uma experiência negativa. Podemos citar, por exemplo, a tentativa de fuga do ambiente, de não cumprimento das regras, adoecimento psíquico, e outras.

📌É importante que os pais compreendam seus filhos, os acolham, os escutem sem críticas, pois o que esses jovens precisam é que sua voz seja ouvida. E não se trata de apenas deixá-los falar, mas de compreender o sentido de todo esse processo. Talvez dessa forma, ouvindo-os mais, poderemos compreender melhor quem são nossos filhos, o que eles querem, quais seus sonhos e desejos. Pais, COMUNICAÇÃO!

📌Outro ponto a ser observado, é que toda mãe e pai, busca o melhor para seus filhos. Disso não tenho dúvidas. Contudo, podemos cair em uma armadilha traiçoeira: projetar nossos sonhos não realizados em nossos filhos. Não podemos ser cruéis de cobrar que eles conquistem aquilo que não conseguimos. Eles precisam de autonomia para trilhar seus próprios sonhos, com o nosso apoio e suporte.

* o grifo é meu para pontuar os aspectos relevantes a serem pensados

Fica a reflexão. O conselho é claro. Comunicar-se mais, orientar mais e não projetar o que imaginamos ser. Qualquer dúvida, o canal está aberto.