“Escolho o fio vermelho para cortar, senhor”. Como assim?, perguntou um oficial. “Você precisa cortar o fio certo para desarmar a bomba. Tem certeza?”. Na dúvida, se não é o vermelho, é o preto, pensou o soldado que estava com a missão de salvar o grupo.

Simples assim. No entanto, de uma complexidade exigida de jovens de 18/19 anos que nem sempre estão acostumados às consequências da escolha. O pequeno trecho desse momento tenso e derradeiro, durante o treinamento de campo, foi apenas um dos muitos ensinamentos que os soldados levarão dos quatro dias que ficaram em missão.

Nem sempre a proposta estava clara, nem sempre foram executadas de forma fácil, nem sempre a mais agradável. Exaustos, sujos e esfomeados, no limite das forças, imagino o que sentiram nos pouquíssimos segundos que antecederam ao corte do fio. É tudo ou nada.

Simbólico, o corte do fio era reflexo do empenho da tropa, do sacrifício, da dor, do orgulho a cada vitória, do incentivo ao amigo da frente, do companheirismo entre os soldados porque, afinal, “ninguém é uma ilha”. Em todos os momentos da nossa vida precisamos de alguém.

E a tampa da caixa se abriu. E veio a surpresa. No fundo da caixa pesada, era possível ver as tão sonhadas boinas pretas. O resultado simbólico de toda a empreitada estava ali, nas mãos de um único soldado que representava o grupo. E o próprio soldado 725, Daniel Staniski, me contou que foi impossível não se emocionar. Afinal, “ninguém é uma ilha”.

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
John Donne

Crédito: Exército Brasileiro

No dia 11 de maio de 2019, coincidentemente dia que antecede a comemoração do Dia das Mães, 1.400 soldados irão receber das mãos de suas mães, as tão esperadas boinas pretas. Ato representativo da transição do jovem civil para um combatente do Exército Brasileiro, simbolicamente o resultado dos desafios atingidos, a coragem e a determinação no período que pisa no quartel e inicia o serviço militar.

Momento que encerra o período de instrução individual básica, a formatura tem o objetivo de materializar na forma da boina que estarão incorporados em suas organizações militares. 

Por trás de todo objeto tem uma história. E a boina preta não é diferente ao representar uma tradição secular que identifica o soldado. Nos registros, a boina preta surgiu como cobertura militar nas unidades blindadas e mecanizadas na 1.ª Guerra Mundial, no Exército Britânico. 

Com o surgimento dos primeiros carros de combates – apertadas, sujeitas a constantes panes e manutenção – foi preciso adaptar o uniforme dos integrantes substituindo o capacete de aço por uma cobertura que ajudasse na agilidade e conforto dos soldados embarcados.  A boina, até então utilizada somente para as tropas que ficavam nas montanhas, foi incorporada. Na cor preta para evitar perceber as manchas de graxa e óleo, comuns entre os que precisavam cuidar dos veículos.

No Brasil, o uso da boina preta como peça do uniforme das guarnições de blindados surgiu no final dos anos sessenta, lembra os registros do site do Exército Brasileiro.  À época, a 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, em Bagé, no Rio Grande do Sul, utilizou-a, em caráter experimental, como cobertura dos integrantes nas unidades de Cavalaria.

Em 1979, foi autorizado o uso da boina preta como peça do uniforme dos militares das unidades e subunidades de cavalaria blindada e mecanizada. 

A entrega da boina preta é (…) o reconhecimento à dedicação, ao entusiasmo e à vibração dos recrutas, demonstradas ao superarem as dificuldades das instruções, o cansaço, a chuva, o frio e a lama, afirmando possuírem a força de vontade, a rusticidade e o preparo físico necessários para serem verdadeiros combatentes blindados.