É dezembro. E parece que foi ontem que os filhos entraram no quartel. Foi um susto para mim quando recebi a notícia em fevereiro; e descobri que também foi para a maioria das mães do @bizudemae. Na vontade de querer não querendo, todos nós fomos pegos de “calça curta”. E a tarefa do ano foi aprender a lidar com os sentimentos e as transformações.

E as mudanças continuam… As listas das baixas oficiais entre os soldados que cumpriram o serviço regulamentar devem ser entregues antes do fim do ano. Nos bastidores, muitos imaginam o que reserva o destino para os próximos anos. Têm os que se alegram porque irão continuar vestindo a farda. E têm aqueles que queriam ficar, mas as chances são poucas. E o choro é livre. Se têm quem não queira, têm muitos que sonhavam em seguir a vida militar.

Diante disso, paro para pensar. 12 meses de um tempo que nossos filhos foram testados. Aprenderam a ser soldados e a agir como tal. De um lado, a alegria de quem se empenhou e teve o retorno do resultado. De outro, dois vértices. O que buscaram seguir as regras, mas descobriram que nem sempre é suficiente para o resultado positivo; e a pena de quem não conseguiu entender e trazer para si qualidades como disciplina, senso de grupo, união que faz a força e diferença, companheirismo. E, assim, tem quem vai sair em 10 querendo não sair e quem aprendeu e burilou os valores aprendidos no mundo verde. Cada um é cada um.

Daqueles que não ficarão e gostariam, reflito que para homens em formação é mais um dos primeiros desapontamentos dos tantos que a vida reserva como aprendizagem. Com certeza – eu espero! – que eles parem para pensar que o tempo que ficaram aquartelados serviu mais do que cumprir missões, mas que foi um tempo de entender a dinâmica das relações interpessoais, de grupo e o que cada ato traz como consequência. Sinto por aqueles que lutaram para ficar e que interferências conhecidas e desconhecidas apontaram outro destino.

Foi um ano cheio de novidades; intenso de sentimentos de ambos os lados. Quisera saber o que cada um dos soldados conseguiu apurar para si. De algumas mães do Bizu consigo apurar, ouvir e incentivar. Tem vida lá fora e depende de cada um o que os espera.

Tivemos baixas precoces por motivos de saúde; tivemos intercorrências motivadas por brigas e alterações; tivemos dois suicídios de jovens que amavam o que faziam mas não tinham a estrutura e o ombro certo para tirá-los da depressão; tivemos mudanças de pensar e agir; tivemos lágrimas de emoção ao vê-los em formação entoando os hinos; tivemos sobressaltos ao imaginá-los em situações aquém do que viviam antes; tivemos orgulho ao vê-los se transformarem. Não tem como passar incólume por esse período.

Pela minha experiência pessoal, partilhei todos esses sentimentos com 34 mães. Algumas mais participativas, outras nem tanto. Mas, atentas. Quero mais e não quero parar porque os resultados, mesmo ínfimos diante de tantas coisas, foram relevantes para muitas famílias. Lembro de uma frase do ativista Martin Luther King que diz: ” Pouca coisa é necessária para transformar inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios.” E isso tive de sobra.

Ouvi uma frase de um militar veterano outro dia que parei para pensar. Vai passar um tempo e eles vão ter saudades. Vão lembrar com apreço de tudo que passaram e, se não levarem os ensinamentos para a vida, vão ter isso guardado em algum lugar, mas serão homens diferentes dos demais. E vão se emocionar toda vez que passarem pelo quartel; e vão buscar saber do irmão de farda senão pela amizade, por curiosidade; e mais do que tudo, saberão que podem ser e passar pela pior das dificuldades. Eles foram testados e ultrapassaram os limites e venceram. Qualquer outra batalha, é fichinha.