Ter memórias nada mais é do que voltar no tempo. Fui lá … E se fechar os olhos lembrei da configuração da tropa antes da apresentação. De espectadora, me imaginei do outro lado. Do momento que a banda militar entra em formação, os homens à frente, perfilados, com os instrumentos musicais em posição. O tremor no dedo e um frio no estômago, mesmo daqueles mais experientes. Afinal, nas palavras de cientistas, a música pode partir ao meio e fluir emoções que até os mais fortes e os mais treinados sentem quando dá aquela explosão no cérebro, igual a fogos de artifício. Da primeira a última nota. Somente à espera da batuta levantar.

E foi diante de uma cena muito parecida como esta, que o atual Capitão reformado Antonio da Silveira, 88 anos, passou boa parte de sua vida. Sua trajetória é rica de experiências. Não somente musical, mas de empatia por seus subordinados e colegas. Não tem um que não se emocione ou que traga boas recordações de um tempo que passou mas é tão presente na lembrança. Os meninos que se transformaram em músicos militares.

Através de depoimentos enviados em áudios, vídeos e mensagens de texto, foi possível perceber o motivo de terem apelidado de Semana ou Era Antoniana àquele período que antecede o aniversário do líder, do militar que chamam de pai. Foi o tempo referente ao período que o militar comandou a Banda do 18° Batalhão de Infantaria Motorizado, em Porto Alegre. “Só quem viveu, sabe como foi”, pontua um dos militares. “Um grande professor em tudo. Na tristeza, na alegria (…) quando tive uma mão amiga que me sustentou muito”, comentou Sargento Daniel Cardoso Ferreira, conhecido como Ben-te-vi. Um dos colegas que serviu com o Capitão Antônio como sub-tenente no 3.º Regimento de Cavalaria de Guarda, em Porto Alegre, e depois até o final da carreira no 18° Batalhão de Infantaria Motorizado lembra: “Tudo que aprendi como músico e como homem, tenho gratidão a ele. (O Capitão) Nunca deixou de atender a ninguém, mesmo que a primeira palavra fosse o ‘não’. Era dar meia volta e se escutava: ‘Tu vai. Amanhã, aqui para a chamada’.”

E lembrei de algo que ouvi certa vez sobre militares veteranos ou que entraram para a reforma quando se reflete a importância de um tempo vivido. “A farda não é uma veste que se despe com facilidade ou até com indiferença. É outra pele que adere à alma. Irreversivelmente para sempre.” Com certeza.

“Eu vou sentir saudades dessa
gente amiga. Caxias, Garibaldi (…)
porque recordar é viver… “

Dobrado Sinfônico em homenagem a Padre Reus.

TRAJETÓRIA
O Capitão Antonio da Silveira, 88 anos, nasceu em Porto Alegre, no dia 15 de agosto de 1932. Filho de José Antônio da Silveira e Irácema Oliveira da Silveira, teve no pai como professor e incentivador para a música, componente da Banda de Música do Terceiro Batalhão da Brigada Militar.

No tempo regulamentar do Serviço Militar, Antônio prestou serviço no Sexto Esquadrão REC Mecanizado. Mas, o interesse musical o levou a prestar concurso na Banda de Música da Escola Preparatória de Porto Alegre, em 1953. Ao passar no concurso – um ano após o cumprimento do serviço obrigatório militar – foi incorporado na banda como Cabo Músico.

Em 1964, foi para o Rio de Janeiro para continuar sua escalada ao prestar concurso a Primeiro Sargento Músico. Foi classificado em primeiro lugar. No início de 1965, iniciou o estudo de Harmonia com o professor Enio de Freitas Castro e o Maestro Alfred Hursberg. Dois anos depois, voltou a capital fluminense e mais um concurso veio incorporar ao currículo com o título de Mestre de Música do Exército. Foi nessa ocasião, que sendo devoto de Padre Reus, fez a promessa de compor um dobrado sinfônico em homenagem ao padre jesuíta. A obra é intitulada como “Padre Reus”.

Em janeiro de 1971, foi aprovado no vestibular do Curso de Composição, Regência e Licenciatura em Música, pele Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1976, recebe o título de subtenente. Até 1979, permaneceu no 18.º Batalhão de Infantaria Motorizado foi transferido na sequência para o 3.º Regimento de Cavalaria de Guarda, em Porto Alegre. Em 1982, foi promovido a 1.º Tenente e em junho de 1984, atingiu o posto máximo da carreira com a promoção a Capitão, permanecendo no Batalhão Arranca Toco, 18.º Batalhão de Infantaria Motorizado. Em 1987, recebeu a Medalha Militar de Ouro pelos 30 anos de serviço ao Exército.

O Capitão Daniel Sábio Meireles lembra que o Capitão Antonio foi além de ser músico militar. O amigo pessoal ajudou na formação de muitos jovens no Colégio Militar, conhecido na época como o Casarão da Várzea e Colégio dos Presidentes. Muitos desses alunos, chegaram ao Generalato, posto mais alto das Forças Armadas. Recorda também que o Capitão foi músico instrumentista em orquestras de rádio de Porto Alegre, em companhias de Teatro e muitas outras atividades culturais. Entre suas obras, teve a participação no Hino Porto Alegre.

Atualmente, mesmo na reforma, continua produzindo. No canal que mantém no Youtube com o nome de Anthony Silverman tem diversas para serem prestigiadas. Entre elas, o Minueto em homenagem ao Padre Reus.

O DIA A DIA

Como todo grupo – e no Exército mais vísivel ainda – eles eram unidos. Uma das expressões que surgiu na banda chefiada pelo Capitão Antonio foi o “vai pegar a briga ou não? maquele momento quando ele colocava a batuta embaixo do braço e ia até o comando “comprar a briga” pela banda e pelos seus. O objetivo era transformar, além de melhorar no dia a dia as condições daqueles que via como filhos.

É o que lembra o sub-tenente Luis Basso do Nascimento, na época soldado, ao contar que era para ele ter ficado como corneteiro. No entanto, foi chamado para a banda pelo então Segundo Tenente Antônio. O reconhecimento profissional vem seguido da aprovação de ter recebido o incentivo de seguir em frente mesmo diante da dor da perda do pai. “Meus filhos são seus netos”, diz emocionado, em áudio. Entre tantos aprendizados, a hora do estresse que tem o tempo de existir. Ele vem e é seguido pela risada.

Outro subordinado da banda, o Sargento Gilberto Shimit Fernandes, vai mais longe. Lembra do agradecimentos dos pais dele pelo Capitão o ter amparado e o transformado em um soldado com honra. “Na década de 1980, foi o que nos deu um ombro, um amparo, um ensinamento, uma correção e, até mesmo quando necessário, uma punição.”

“O santo dos meninos aspirantes a músicos.”