Esse é o ano que muito se reflete no que é viver mudanças. E pode não ser fácil, diga-se de passagem. Está mais para criar empecilhos do que facilidades porque aquela palavrinha chamada resistência chega a ser maior do que o desejo, na grande maioria das vezes. Então, a mãe que conseguir participar desse Mundo Verde com certa leveza, pé no chão e feliz se conseguiu participar de alguma atividade, devido à pandemia, “tá no lucro”.

Mesmo que haja entusiasmo inicial diante do novo, o medo do desconhecido e a insegurança diante destas mesmas novidades podem gerar muito estresse. Desnecessário porque querendo ou não, as mudanças acontecem quando o assunto é Serviço Militar Obrigatório. São dozes meses – quiça, 10 meses da primeira baixa – de muitas mudanças de rotina, de comportamento, de reflexões diante de atitudes. De tudo um pouco para mãe e para filho. E, nesse meio do caminho, vale entender o quanto as mudanças podem trazer aprendizagem para todas as fases da vida.

Quando se pensa na resistência às mudanças também vale lembrar duas palavrinhas mágicas que faz parte do ano de um efetivo variável e que deixa as mães muito inquietas. O medo de perder o poder e controle sobre o filho. Sim, ele vai aprender e ser cobrado em ser autônomo, responsável, assertivo e capaz de tomar suas próprias decisões sem precisar ligar para a mãe. São necessárias decisões rápidas. Uma missão pode ser avisada em cima da hora. Ele poderá ficar dias afastados de casa, sem dar notícias. Sim, ele é adulto e capaz de se virar muito bem, diga-se de passagem. No entanto, esse processo de aceitação à mudança de comportamento, realmente, pode ser muito difícil para as mães, em especial.

Palavras de oficiais de patente que convivem, ano a ano, com centenas de jovens que são incorporados às fileiras do Exército para cumprir o Serviço Militar Obrigatório, a cada período regulamentar, lembram o quanto tem sido diferente. Os jovens chegam cada vez mais dependentes, exigentes do querer deles e não das regras da instituição, menos preparados para desafios e temerosos do desconhecido. E muitos desses medos fazem parte do ideário da família que não tem boa informação do que é realmente um ambiente militar, mantém um pensamento de que quartel é escola e, principalmente, acredita que a rotina só diz respeito ao desfile de uniformes.

Diante dessas constatações, o @BizudeMãe realiza, anualmente, um questionário para que as mães participantes do grupo possam traçar um perfil desse recruta, dela e as mudanças ocorridas em meio ano de vida militar. Em três anos, pouco ou nada altera o perfil dessa pesquisa qualitativa, por incrível que pareça. De Norte a Sul do país, as mães tem um mesmo sentimento. Ver os filhos felizes, mesmo que não sonhem o mesmo sonho que elas. E no inicio, não era assim; e a grande maioria das vezes, no entanto, entendem lá no fim do ano que sonhos são únicos. Então, esse é um aspecto relevante. As mães querem os filhos engajados ao fim do tempo regular do Serviço Militar Obrigatório e seguir carreira, não o contrário. E o que pode parecer complexo, não é. Quem tem perfil, ótimo. E nao é querer apenas. Quem não tem perfil, tem vida pela frente além dos muros do quartel.

Um dos primeiros aspectos analisados é quanto a participação. Do grupo, sempre representam entre 40 a 60% as que respondem e se interessam em quantificar a experiência social. Medo? Desinteresse? Timidez? Creio que um pouco de tudo quando se percebem confrontadas com os sentimentos individuais. E tudo bem, porque o desenvolvimento pode se dar por partes. Importante é estar confortável com a vivência e levar como outra experiência.

São diversas perguntas de formato discursivo e de múltiplas escolhas que buscam entender quem é esse jovem, mas principalmente, quem é essa mãe e como ela vem enfrentando esse período. A pesquisa é qualitativa. Esse ano, das 57 mães que estavam no grupo no período do envio da pesquisa, 27 responderam o que representa pouco mais de 47% do universo atendido em 2021. Destas, 65,2% indicaram que o filho queria servir, ou seja, foi voluntário quando da seleção no início do ano. Nesse período, a mãe apontou que experiência tem sido mais positiva do que negativa com 87%. E nesse item, é o primeiro ano com um número tão alto. Nos dois anos anteriores, variavam entre 50 a 60%.

No que diz respeito às dificuldades relevantes estão o horário com 50%, rotina com 15% e comportamento com 10%. Os 25% restantes são apontados como outros, no entanto, são respostas que se inserem em mudança de comportamentos da família, o que traria o comportamento para o segundo lugar.

Mesmo diante dessas mudanças, as mães acreditam que está sendo mais fácil do que difícil esse período de seis meses indicando que o internato é o período mais complicado diante do afastamento do filho e, na grande maioria das vezes, a impossibilidade de saber notícias através do uso do celular.

A pergunta que deseja saber o que mais as preocupam, nesse período, quase 60% sinalizaram a dificuldade que o filho pode estar passando e ele não contar. E esse aspecto é interessante. Quando o filho é incorporado ele passa pelo período do internato que varia de 20 a 45 dias de permanência exclusiva no quartel e falta ou pouca informação de como esse filho está. E a orientação é exatamente para ter discrição e bom senso a diversas informações restritas que vão recebendo, o que pode levar muitas mães a não entenderem. São dois aspectos: o filho pode estar passando por algo e não quer contar para não preocupar; ou ele não pode contar 100% sua rotina. E a observação desse comportamento se faz necessário para entender quando intervir.

No entanto, esse pacote de mudanças desejáveis ou nem tanto, apontam que 63% das mães percebem maturidade nos filhos com 27,3% de mudanças no comportamento. A disciplina que é algo que aprendem desde cedo ficou com 9,11%. E aí vem um resultado que também acaba causando tristeza em muitas mães ao perguntar O seu filho quer continuar ao fim do ano regulamentar? 52,2% disseram que não ou não sabem ainda a opinião do filho contra 47,8% dos que querem se habilitar a seguir a vida militar.

Entre as reclamações mais recorrentes, estão as escalas de serviço com plantões e guardas; a falta de incentivo aos estudos a aceitação à rotina e a exigência de disciplina e organização. Nesse ultimo aspecto, é dicotômico porque a instituição militar é baseada nessas duas premissas.

Um aspecto interessante quanto a participação da mãe no grupo é, entre algumas respostas literais: “aprendi a ouvir mais; percebi o ‘mimimi’ desnecessário; ganhei confiança; estou em processo de amadurecimento; me vejo em experiências de outras mães, não sou única; entre outras.” E o mais fundamental: se sentem parte do mundo dos filhos como grupo, mais fortes, trabalham a empatia dia a dia, as ações correlatas que ajudam a deixar mais leve o dia a dia, baseado na troca e no apoio.

** Quem tiver interesse em participar do levantamento, segue o link. Importante: é necessário que tenha passado, no mínimo, seis meses desde o inicio do Serviço Militar Obrigatório do recruta.

https://docs.google.com/forms/d/13S5QtuT4TX4bCS5SmC3eYIcLBt1-gwPVySsBoXzzb9g/edit