Não precisa ser setembro. Não precisa ser próximo. Mas, é necessário entender que todo mês é mês para manter um olhar afetivo e acolhedor

Nem todo choro é de tristeza e nem todo sorriso é realmente de alegria. É preciso um pouco mais do que uma simples olhadinha, espiadinha ou curtida para decifrar o que há por trás de expressões aparentemente simples como sorrisos, olhares e silêncios.

Quem não foi jovem e sonhou ser bombeiro, policial, herói ou jogador de futebol? Estar e ser famoso, vitorioso, vencedor e forte. Coragem, menino! Seja homem, você consegue! Engole esse choro ai que logo passa! Pensa, filho! Você vai ser soldado, vai ser militar, vai servir à Pátria! Que orgulho!

Seja bom! Seja Forte! Seja corajoso! Não desista! Sim, persista! Não chore! Tudo elabore! Esquece que passa! Pensa no orgulho dos pais, da sociedade, da namorada, dos amigos, da família! Seja! Faça! E tudo agora!

O que eu não me lembro é de ouvir alguém perguntar ou pedir para algum desses futuros heróis brasileiros sentir, expressar, desabafar, parar, respirar, tomar fôlego, aconchegar. Ninguém diz que pode fracassar até vencer, que pode e deve chorar quando a dor for maior que as suas forças, que pode sentir medo até tomar coragem e conseguir, que é normal sentir saudades e querer até desistir de um sonho que talvez nem era seu, mas que ninguém na verdade chegou a perguntar para o garoto, futuro herói, se era esse de fato o sonho dele.

Nessa construção do herói brasileiro, tem entre tantos garotos um Pedro que chega no meio do pelotão torcendo para ser o excedente, porque seu sonho mesmo é ser um super desenvolvedor de tecnologias de inteligência artificial, trabalhar com TI e até, quem sabe, trabalhar no Google. Mas, o Pedro é aquele que tem o estereótipo do herói: alto, ágil e o principal, falou em todas as etapas que não quer servir. Pedro, ao final da seleção do serviço obrigatório, ficou na lista dos futuros cotonetes, ou seja, o mais novo recruta das Forças Armadas Brasileiras.

Família feliz, orgulhosa, o sonho dos pais de Pedro sendo realizado, a namorada dele feliz que agora o namorado usaria farda. Quantas fotos? Quantas curtidas? Pedro ficaria bem certamente com aquela farda. Todos felizes. Pedro, respira fundo, até pensa novamente na Google e se conforma que de repente fica só para mais tarde esse sonho dele, afinal vai dar tempo. Não dá para chorar por isso.

O internato inicia, a vida na caserna agora é em tempo integral e aos poucos, Pedro se adapta. Rapidamente se acostuma a acordar cedo, arrumar sua cama, cuidar de suas roupas e pertences, regras, ordens, hierarquia e seriedade. Aprender a ser forte, corajoso, destemido, ágil. Pedro tira serviço armado de fuzil. Pedro é sentinela no seu quarto de hora e como ele mesmo diz está atento se o inimigo chegar e tentar invadir a OM. Ele é SAFO. Pedro vai pegando os BIZUS e entendendo melhor como ser mais milico e menos BISONHO. E assim, Pedro chegou ao tão esperado dia de receber a Boina. 

A cerimônia é bonita, imponente e muito emocionante para todos. Acredito que até Pedro se emocionou um pouco, mas conseguiu segurar firme, afinal ele já não é mais um garotinho, é um homem, é o herói finalmente. Sem choros. Família feliz, pais felizes, namorada feliz, fotos no Insta, curtidas no Face. Quem diria que o filho da dona Claudia já estaria com 18 anos feitos e seria um milico desses! Juliana, a namorada, posta e viraliza no Tiktok o vídeo dela e Pedro juntos e lindos! Pedro timidamente sorri. Ali se viu um sorriso que poucos notaram, mas que foi diferente de todos os demais que seguiriam.

Pedro agora era mais quieto, mais reservado, mais calado, mais fechado, mais sério. Além disso, Pedro agora era menos falante, menos sorridente, olhava menos nos olhos, ouvia menos música e ficava mais tempo no celular. Todos estavam encantados com o amadurecimento do garoto depois de ter ingressado nas fileiras das Forças Armadas. Era realmente digno de muitos elogios.

Todos se encantavam com as mudanças menos Claudia, mãe de Pedro, que aos poucos foi sentindo falta do jeito habitual do filho e da proximidade que eles tinham. Como muitas mães devem entender esta frase, Claudia e Pedro podiam se falar pelo olhar. Mas agora só havia silêncio até pelo olhar, Pedro não olhava mais nos olhos, não falava mais, não sorria. 

Foi então numa tarde em que Pedro estava saindo de casa dizendo que ia dar uma volta que Claudia o pegou pela mão e perguntou se estava tudo bem e ele falou: “está sim…”. Pedro saiu caminhando sem dizer mais nada. Claudia com aperto no peito foi até o quarto do filho e vasculhou o seu quarto. Entre as tantas bagunças (tão diferente do que um milico deveria fazer) que viu no quarto que vivia agora com a porta trancada, encontrou umas folhas rabiscadas em que Pedro dizia o quanto estava triste com a vida, chateado e desanimado. No computador ligado e com WhatsApp aberto tinham as mensagens trocada com a namorada que achava uma frescura ele ficar o tempo todo falando que estava na pior, sempre reclamando de estar triste, que passou por muitas dificuldades enquanto esteve no serviço militar e que ele não se sentia nada bem. Cansada das inúmeras reclamações de Pedro, Juliana tinha terminado com ele. 

No grupo da turma da OM foi zoado, porque estava ficando chorão e agora tinham tomado uma ruim da namoradinha que não aguentou a pressão do garotinho mimado. Eram memes e mais memes de Pedro como se fosse um bebê chorão. Nem parecia coisa de homem.

Claudia saiu correndo na tentativa de encontrar o filho ainda caminhando pela rua. Com sorte encontrou o filho numa antiga pracinha onde ela o levava no tempo em que ele era criança e Pedro estava lá sentado no canto da praça num banco de costas para tudo. Devagar, Claudia foi se aproximando do filho e sem que ele percebesse sentou-se ao lado dele e começaram a chorar juntos ali de mãos dadas. Alguns minutos não se ouviu mais nada além daqueles choros que pareciam ser de um lado alívio e aconchego e de outro culpa ou até um pedido de desculpas. 

Aos poucos, a mãe do herói foi se dando conta de que homem chora. Que a saudade foi imensa de ambos os lados, que a falta dos sorrisos, abraços e colos foram distanciando mãe e filho, sonhos e esperanças. O herói confessou que não estava pronto para ser forte, corajoso e firme o tempo todo e a mãe do herói confessou que não precisava que o seu garoto fizesse qualquer coisa que não fosse aquilo que ele realmente sonhasse ou simplesmente lhe deixasse sentir-se bem. 

Ele aprendeu a pedir ajuda, que homem chora sim, que precisa de muita coragem para não perder a sensibilidade diante de coisas novas ou desafiadoras. Ela aprendeu a olhar mais para o filho e para o que é importante para ele e começou a pensar nas vezes que ela e o marido projetaram suas expectativas e sonhos nos filhos sem perguntas para eles. Ele se sentiu encorajado para estudar tecnologia e disse que queria mesmo trabalhar na Google, e ela se deu conta que aquela conversa no banco da praça poderia ter sido a última conversa deles na vida, já que ela tinha encontrado o bilhete que ele deixou para ela escondido no quarto se despedindo.

Eles voltaram para casa juntos, combinaram de não terem segredos. Claudia disse que ele podia contar sempre com ela e que nunca acharia besteira qualquer coisa que ele contasse para ela. Ela não falou do bilhete dele. Ele nunca perguntou se ela leu. Pedro começou a conversar mais com a mãe e voltou a sorrir mais, mas agora era sim um sorriso de verdade.

No mês de setembro, em que se foca sobre campanhas de prevenção de suicídio, temos estatísticas bastante alarmantes no Brasil e no mundo. A Organização Mundial de Saúde estima que a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio em algum lugar no mundo. Ao todo, são quase 800 mil pessoas que morrem por suicídio anualmente no mundo. No Brasil, só em 2020 foram quase 13mil casos. A média de idade está entre 15 e 29 anos. As regiões sul e sudestes são as que concentram os maiores números de casos no país. 

Esses dados não são apenas números, são pessoas e famílias devastadas e fortemente atingidas pela perda precoce de seus entes queridos, que muitas vezes não foram percebidos nas suas dores. Os sinais e sintomas que podem preceder uma tentativa de suicídio ou automutilação não são sempre típicos, ou seja, nem sempre a pessoa estará mal, avisará o que vai fazer ou aparentará algo depressivo.

Muitas pessoas apresentam até comportamentos aparentemente normais, momentos antes de atentarem contra a suas vidas. O que pode prevenir essas tragédias, é humanizar o olhar sobre as pessoas que estão próximas. Olhar com mais atenção para os seus filhos, investir mais tempo em saber sobre o que eles pensam, sonham e querem para seus futuros. Estar presente, dar exemplo, não julgar e acolher são atitudes muito efetivas para prevenção de danos aos nossos jovens. Há muitos Pedros e Claudias espalhados por diversos lugares do país que podem não ter tido a mesma sorte de se encontrarem a tempo. 

Karine Mendonça Rodrigues
Doutora em Psicologia
2º Tenente – Exército Brasileiro