A mãe, por natureza, precisa se reinventar a todo momento. A mãe de um soldado laranjeira (aquele que mora no quartel), então, entrou na fila duas vezes. Das mudanças para ontem, a partir do dia que o filho disse sim, é uma aceitação a todo momento. Ou não. Só o tempo, o choro e a certeza de que mais uma nova fase iniciou pode capacitar a mãe a vencer os meses. Quem é mãe de laranjeira diz que tem vantagens e desvantagens. Aí para qual lado a balança pesa, cabe a avaliação de cada uma e do que vai sobrar desse experiência única.

E, com certeza, não é fácil para mãe e filho, inicialmente. Depois acostuma. Se não é fácil para um jovem que – até então estava em casa, mantendo uma rotina de estudo ou trabalho, com acesso a tudo que uma família pode proporcionar – se ver entre quatro paredes de um local desconhecido, para a mãe o pouco tempo e poucas palavras, realmente, é uma prova.

Enquanto todos voltam pra casa diariamente, após o toque de ordem, o laranjeira fica no quartel. Tem os que voltam no fim de semana. Tem os que estão em OMs distantes de casa quilômetros e ficam meses até conseguirem folga, dinheiro ou carona para rever a família. E tem quem só retorne em grandes feriados, conforme a distância.

Das versões do motivo do nome, tem algumas. A dos soldados que moravam em zonas rurais e quando retornavam ao quartel traziam sacos de laranjas para garantir a semana; ou os que sempre guardavam laranjas (fornecidas aos montes) dentro do armário para garantir aquela hora da fome; ou de quarteis no Rio de Janeiro que eram rodeados de pés de laranjas, costumamente visitadas pelos que moravam no quartel, e por aí vai. Tem para todo gosto.

Mas, como tudo é aprendizado e ele só existe quando se é submetido a desafios, a história da mãe de um recruta do interior do Rio Grande do Sul é um exemplo de que não é fácil, mas é possível. Joci é uma das tantas Marias, Suzanas, Sandras, Elizabetes que se acostumam dia a dia com a rotina que caiu no colo. O recado para as novas é o mesmo. Virar a chave e aprender que a tristeza precisa virar felicidade. Por eles.

“A saudade começou a ter outro sentido. Virou alegria para as chegadas e virou amor para suprir a falta que ele me faz. Com apoio do grupo, fui entendendo o caminho que meu filho escolheu e aceitei.”

E a história de Joci só muda de endereço, estado e tempo cronológico. Ela conta que criou o filho sozinha, com todas as dificuldades que se possa imaginar nesse trabalho de carreira solo. Foram os sustos do alistamento, do dia que se apresentou, até a notícia de que iria ser incorporado para cumprir o ano do Serviço Militar Obrigatório. A mais de 420 quilômetros de distância de casa.

Eu duvidei. Eu o criei para ser meu, ficar comigo para sempre. Até pensei: é coisa de guri, vai chegar na hora e não vai nos deixar. Errei, e ele foi. No dia que o deixei na porta do ônibus para embarcar não acreditei. Só caiu a ficha quando recebi a mensagem. ‘Eu tô indo por mim, mas muito mais por vocês, mãe. Eu quero ser o que sempre foi para mim, um exemplo e te dar orgulho.’ Eu voltei para casa e me deparei com o sofá – que sempre disse ser seu espaço – e meu filho não estava lá, no seu cantinho. Ao meio dia, esperei para o almoço. E, ele não chegou. Então, é verdade, virei mãe de recruta. Torci para que nos 35 dias de internato, ele pudesse ser dispensado e voltar para mim. Ao contrário, a cada ligação ele me mostrava que queria mais, que estava feliz e que era, realmente, o que esperava.

E como todas as fases têm suas mudanças, no retorno do internato a percepção de que o guri não era mais o mesmo veio nas respostas. “Tu estás feliz em tomar banho frio, em limpar banheiros, em capinar?”, a pergunta ansiosa foi ouvida com um silêncio seguido de uma resposta que tirou o fôlego. “Apesar de minha vida toda eu nunca ter feito isso de limpar, lavar, capinar e muitas outras coisas que a senhora nem imagina, mãe, eu estou feliz sim. Eu estou feliz por vestir uma farda. Estou feliz em pegar num fuzil. Eu estou feliz em aprender cada dia uma lição e estou feliz em servir ao meu país. Então, minha resposta é sim, senhora dona Jociane, eu estou feliz!”

Passei a mão no meu sofrimento (dele não ter falado o que eu queria ouvir) e comecei a ver que tinha criado um homem. O menino que eu queria, não existia mais!

E a mãe conta que a cada dia, a cada ligação, a cada fim de semana do filho longe foi ficando mais forte e tentando entender mais e mais as escolhas assumidas. Ele não teria dias certo para vir para casa. O EB ficaria com ele direto. E com o apoio do grupo Bizu de Mãe, Joci lembra que foi se fortalecendo, trocando dores e amores, entendendo que tudo fazia parte de uma nova etapa. E está vivendo cada dia de cada vez.

Sempre soube que meu filho iria servir em outra cidade e que seria difícil vir para casa pela distância e também pelo lado financeiro. E tem dias que não é fácil ouvir as outras mães contando dos preparos para a chegada dos filhos. Eu preparo meu coração para mais um final de semana sem ele. Fui me moldando a cada mensagem dizendo que não conseguiria vir naquele feriado, ou que não ia ter almoço de domingo. Guardei as lágrimas e a saudade num potinho no cantinho do coração, e aprendi que, mesmo longe, meu filho estava feliz fazendo o que queria. Quando vem, são dois dias e meio, de muita alegria. De silêncio, também, porque evitamos falar só de quartel. E de certezas de que está seguindo o caminho escolhido com muita reflexão.

E ano de Serviço Militar Obrigatório tem suas surpresas. O campo foi uma prova de fogo, cinco dias sem notícias. Ao fim, uma chamada de vídeo de um homem sujo, magro, cansado, mas de boina na cabeça e os olhos cheios de felicidade. “E eu querendo abraçar, querendo sentir ele e ver se estava inteiro. Se viria para casa. Perguntei umas quatro vezes. E nada, e foi aí que aprendi que as respostas viriam no tempo certo e quando possível. Tudo bem, mãe entende!

Não entendia, não. Eu queria meu filho. Fiquei chateada, nervosa, nem conseguia falar. Caiu a noite, sem nenhuma mensagem. O boa noite não veio como era de costume. Fui dormir triste, mas orgulhosa do meu menino. Quando deu duas horas da madrugada, bateram na porta de casa. Era minha irmã pedindo um remédio. Quando abri a porta, vi meu soldado na minha frente, com a bendita boina na cabeça. Foi um choro só. Mas uma vontade de matar ele por ter me enganado o dia todo!, conta rindo.

Nesse ressignificar, o conselho vem no pedido de que as próximas mães sejam fortes por elas e por eles! “A saudade se torna pequena quando enxergamos que os filhos se tornaram homens de bem, que tomam as próprias decisões e que caminham com suas próprias pernas! Aprendem a cuidar de si e das suas coisas. A tomar decisões. Ser mãe de laranjeira tem suas vantagens, também. Nós não estamos ali toda hora para resolver tudo, assim precisam tomar suas decisões. Amadurecem.” É resolver no momento, sem esperar a chamada de vídeo, a ligação furtiva, a mensagem trocada no quarto de hora ou quando for possível chegar em casa. É agora. E isso é bom. E a cada retorno, vão pacotes de comida gostosa, roupa limpa e cheirosa e um imenso abraço repleto de saudades até o próximo mês ou quem sabe quando der. “Leve meu perfume, leve o amor dos teus irmãos, leve minha benção e a certeza de que estamos juntos porque confio e te amo.”