Não é de hoje que a comida do rancho tem sido motivo de brincadeiras. Zoação à parte, a hora da comida pode reservar doces ou amargas surpresas. Depende do freguês, da fome e do espírito de entender que na guerra ou na paz, até terra vira manjar.

Para quem não sabe, os locais reservados para recrutas e soldados é diferente dos destinados aos oficiais. Rancho e cassino tem suas peculiaridades de espaço e gosto. Do bandejão ao prato e copo. Talheres de plástico ou de metal. Do cardápio ao tempo. No entanto, conforme os limites geográficos e gostos individuais, a comida tende a ser farta e boa. Vai depender do estômago e da fome.

Se há alguns anos, ser recrutado era sinônimo de inferno gastronômico, de comida ruim ou insossa de bandejão, hoje tende a ser diferente. Da lembrança do famoso cozinheiro dos quadrinhos Chefe Cuca, sucesso das tiras da década de 50 com a revistinha Recruta Zero, os chefes de rancho atuais ganharam experiência na gastronomia com cursos e especializações. O estafe de recrutas, muitas vezes selecionados entre os que tinham a QM como última opção ou entre os que possuíam a prática em restaurantes, lanchonetes e pizzarias, dão a diversidade e a certeza de que o novo bizurou. Sim, estar no trabalho do rancho garante comer bem e em quantidade.

E tem de tudo. Polêmica e dúvidas. Ouvi certa vez de um superior de que a comida ser boa ou não é reflexo da administração do comandante. Em quantidade e qualidade. E isso é óbvio na administração, seja de uma casa ou de uma empresa.

De Norte a Sul do país, tem quem diga que come muito bem, na média, com pratos de feijoada, estrogonoff, churrasco, bolos diversos e caldas, pudim e sobremesas diversificadas e até salmão. E entre recrutas.

E para alegria de muitos se o bandejão daquele dia estiver com arroz e feijão quente, bem cozido e temperado já estão no lucro. Se tiver sobrado um tipo de proteína, mais ainda. Sim, o espírito de tropa, infelizmente, não contamina todo mundo. E mesmo lembrando que é uma carne por soldado, porque afinal tem os outros turnos, divididos conforme a saída de plantões e guardas, tem quem só pense no seu prato de estivador.

No internato, os montes variam pela cara feia do recruta. Não gosta? Vai mais uma concha. E comer tudo, como dizia a mãe. Se sobrar, come mais e mais rápido. Com o tempo, ganham regalias e o pedido de não desperdício. No entanto, as lixeiras que o digam. Ou pela falta de qualidade ou o olho maior que a barriga, quilos de desperdício poderiam fazer a festa de quem não tem. E assim caminha a humanidade… Dos excessos e da falta de administração, o meio turno chega cedo para ajudar no racionamento da comida. Sobrou meses para a previsão inicial dos esfomeados, diriam alguns.

E tem quem tenha suas preferências e nem sempre ( quase nunca!) se acostume com o arroz sem sal, o frango que só falta sair voando de tão cru, o porco que ainda lembra dos bigodes, ou do suco de cor que ninguém sabe de qual fruta tem uma leve lembrança. O tal suco de coturno. E desrrancha, enchendo armários de bolachas, laranjas e marmitas que trazem de casa.

E quem não lembra- entre os antigos e jovens soldados- do tal do caol, mistura de leite em pó, café e açúcar, ralinho e esbranquiçado que parece “chafé” servido em canecas, muuuuuuuuito quente. Queima até a alma. Dizem que o nome surgiu do líquido que lustra as fivelas de prata chamado Kaol e que tem o mesmo aspecto. Quem sabe um dia alguém do rancho deve ter errado na mão…

E a história do frango é um caso recorrente e típico, em qualquer OM. Tem vezes que dos sete dias, quase todos tem frango. É coxa e sobrecoxa assadas, isca de frango na chapa, sobrecoxa assada de novo e panqueca de frango. E tudo de novo. Tem quem nso consiga ver e sentir o cheiro quando chega em casa e fica proibido no cardápio.

E assim vão se construindo as lembranças afetivas. Goste ou não, ah, vão lembrar daqui alguns anos para contar para os filhos e netos. Do dia que um morango nevado ou um simples pedaço de pizza ou cachorro quente ( sem piriri e visitas ao banheiro) foram a salvação para o dia cheio, treinamento intenso e saudades de casa. Sim, porque ninguém é de ferro! 😀