Você tem tido o hábito de falar de seus sentimentos? A grande maioria, vai responder que não. E tudo bem, quando não é um problema. Pode ser difícil se nunca foi hábito. Pode ser constrangedor pensar e se dar conta que o ser humano é frágil, confuso, falível. A dificuldade de expressar sentimentos por meio de palavras – orais ou escritas – é muito mais comum do que imaginamos.

E em ano de Serviço Militar Obrigatório, a cobrança do autoconhecimento e de aprender a lidar com emoções vem com tudo. A mãe se percebe em um redemoinho de dúvidas, de sentimentos confusos e inexplicáveis, de medo seus e intransferíveis – mesmo que pense ao contrário na insistência de que a fala é do filho também e nunca é – de timidez, de medo de rejeição ou ridicularização ao verbalizar suas falhas e dores. E não é. Falar de sentimentos é essencial e refletir sobre atitudes, mais ainda, para aprender com todo o processo. É contínuo, pode ser resistente conforme a personalidade e apego, é evolutivo. E nesse pacote, a mãe precisa entender que não é preciso ser perfeita. E o filho não precisa ser excelente. Não precisa ser o #filhomaravilhoso ou o #filhoideal ou #filhosabichão. Ambos são o que é preciso ser com suas dificuldades, seus limites, seus bloqueios, suas habilidades e suas características que formarão a persona. Menos cobranças, mais atitudes.

E como tudo tem um diagnóstico implícito ou não, 2022 foi o ano marcado pela resistência. Como nos últimos quatro anos, a cada seis meses do inicio do novo grupo é entregue um questionário para a percepção de como tem sido o “andar da carruagem” no quesito Mundo Verde. Das 40 mães do grupo de whatsapp, 25 responderam as perguntas que buscaram traçar um perfil. Quem é essa mãe de recruta do ano de 2022? O material de pesquisa da experiência social baseia-se na análise qualitativa, anônima e em respostas descritivas.

Além de caracterizar em que mundo estão inseridas (profissão/localização), algumas questões dizem respeito ao que percebem dessa experiência do filho, como recruta. 56% responderam que os filhos queriam servir, número inferior ao ano anterior com 65,2%. No quesito, a vivência tem sido mais positiva do que negativa com 79%. Nas respostas, foi sinalizado aspectos iniciais como sendo muito difíceis mas que com o passar do tempo a tendência ficou mais leve quanto ao entender o desconhecido e aprender a lidar com as alterações psicológicas. Como nos anos anteriores, o internato é o período mais difícil das mães entenderem. Nos anos anteriores, o mais relevante foi a falta de notícias através do uso do celular.

Na sequência, o atendimento clínico do filho foi necessário em 76%, com raras exceções de quem não precisou nenhuma vez ir até a enfermaria do quartel. No quesito, se acreditam que o filho tem interesse de tentar uma vaga para engajamento, 60% indicaram que sim ou desconheciam (dados quase meio a meio) e 40% estavam entre os que os filhos não querem seguir a carreira militar. No pacote de mudanças percebidas nos filhos, é perceptível a maturidade com 60%, seguida de 16% de mudança de comportamento.

E aí vem a polarização do “tudo” ou “nada” e o reflexo de confusão ou não entendimento. Em dois itens da pesquisa foi perguntado sobre as dificuldades enfrentadas nestes últimos seis meses e o que incomodam as mães. Entre rotina, comportamento e horário – situações recorrentes – 44% marcou “Outras” sem identificar o aspecto. A segunda escolhida, com 20% foi a mudança de comportamento. Outro aspecto relevante foi quanto a preocupação. 37,5% apontaram a opção “Outras” que não diziam respeito as identificadas como – ele estar incomunicável no quartel/participar de missões externas que desconhece/estar em dificuldades e não contar, representada por 29,2% das respostas indicadas/ ou não querer falar sobre o quartel. Ao serem questionadas quais serias esses aspectos “outros” nos dois tópicos, nenhuma resposta.

Entre as reclamações mais recorrentes repetem-se a dos anos anteriores com escalas de plantões e guardas; sair fora do horário e/ou não horário fico; falta de direcionamento técnico.

Entre as respostas sobre o que aprendeu como mãe de recruta, nesses últimos meses: vão desde “aprendi que pode se virar sozinho”; “com o grupo ficou mais fácil entender e aceitar”; que buscam se controlar para não serem superprotetoras; orgulho por perceber maturidade; tentando superar a cada dia; e até mesmo que apontou que não havia novidades diferente das que apontaram que “viram a vida revirada”. A forma como chegaram ao grupo foi pelas mídias sociais e 100% indicaria o grupo para alguma amiga na mesma situação.

E no processo de se auto avaliar ou refletir sobre as experiências passadas, o resultado do questionário vem ao encontro de como se faz necessário parar e pensar para se autoconhecer. Sem pensamentos negativos, porque prejudicam o processo ao ponto da pessoa achar que falar dos sentimentos não vai chegar a solução nenhuma. Ou de que o sentimento pode gerar tristeza que paralisa. No fundo, é simples. É usar a emoção/a visão do fato como propulsor para o movimento, buscar da construção de diálogo – e não monólogo – e promoção de espontaneidade. Não é preciso ser perfeito para ser feliz. Só é preciso aprender a viver.